Faça Sua Parte, Companheiro!
Mais uma vez, tudo acabou em pizza? E o que foi, concretamente, que você fez? Concretamente!! Quantas vezes você fica puto e, já no dia seguinte, toca a sua vida como se nada tivesse acontecido? Seja sincero: quantas vezes?
Eu acho que chegou a hora de encarar essa nossa passividade. Acabar com essa hipocrisia de quem não reage nunca!, mas está sempre “muito puto” com as falcatruas de Brasília, com a letargia do Judiciário, com a zorra dos hospitais, com a falência da escola pública, com a estupidez covarde da polícia contra os pobres, com a imoralidade de 100.000 brasileiros ceifados por ano pela violência das armas e do trânsito… Está na hora de acordar e saber que todos nós (portanto você também!) somos co-responsáveis pela baderna que virou nosso país. Está na hora de parar de simplesmente dizer “isso é uma vergonha!!” e ter a coragem de criar, você mesmo, vergonha na cara e partir pra briga… Afinal, quem manda aqui somos nós!
Propostas concretas para que re-estabeleçamos neste país a “liturgia da cidadania”: que tal invadirmos o Congresso Nacional cada vez que ali se faz uma patifaria? Invadir pacificamente, como homens de bem que somos, mas invadir mesmo!, mostrando, num corpo-a-corpo cívico, a nossa indignação mais profunda, o nosso direito à insolência cidadã quando a insolência maior for o desrespeito à causa pública… Que tal expor o político corrupto ou omisso, dentro do Parlamento onde muitas vezes se refugia, à lâmina cortante do nosso olhar vigilante? Sitiar o Parlamento, que é o foro máximo da democracia, com a “cara feia” do povo que, afinal de contas, é quem paga as contas da casa!
Que tal tornar insuportável o trânsito em público aos canalhas contumazes, aos públicos ladrões de “carteirinha”? … Apontar o dedo em praça pública na cara do corrupto notório que desdenha a Justiça e locupleta-se à sombra de nossa passividade?
Que tal tocar a campainha na casa do juiz ladrão que dorme no apartamento de um milhão desviado da super faturação? Tocar a campainha sim!, todos nós, todos os dias, noite e dia, na casa do deputado pilantra que acumula contas ilícitas no exterior e que com elas se faz eleger como o mais votado do país… Sem violência, porque a nossa linguagem não há de ser a da covardia, mas sem complacência!
Que tal exigirmos, na porta da casa do presidente da companhia aérea que é recordista de acidentes na história da aviação brasileira, que ele atenda à porta e venha sentir, na brasa do nosso olhar cidadão, o drama doloroso dos parentes das suas vítimas? … Tocar a campainha na porta do magistrado que finge que julga e põe na rua o assassino confesso e covarde. Que tal procurarmos, todos nós, dia e noite, com a força de sermos tantos, o assassino cruel que matou a namorada pelas costas e que toma sol à beira mar num escárnio à Justiça? Será bom mostrar, na sua cara, serenamente, a força da nossa indignação vigilante.
Que tal exigirmos, com voz de prisão se necessário, que o comércio não ceda à ordem de fechamento vinda de traficantes? Que tal observarmos rigorosamente!, e que seja esse um dever cidadão, os limites legais de velocidade, deixando clara nossa intransponível reação, no ato do delito, ao pilantra que voa pela madrugada de Ipanema pondo em risco a vida de inocentes?
Que tal um cerco cívico aos agressores contumazes, aos canalhas que usam como argumento a força bruta da pancadaria? Que tal ajudarmos a polícia com a denúncia certa e oportuna, indicando, nas altas da madrugada o endereço onde dorme bêbado o vagabundo que inferniza a favela de fuzil em punho? Que tal anotarmos a placa do consumidor filhinho-de-papai que sobe o morro pra comprar cocaína, o verdadeiro financiador da violência, e passarmos diligentemente seu número à polícia? Sem ter medo de sermos classificados de “alcaguetes” porque esse anacronismo, atropelado pela septicemía na violência, hoje serve à impunidade dos carrascos e desserve à segurança de inocentes.
Que tal mostrar ao idiota que não respeita a lei do silêncio, ao imbecil que joga lixo nas ruas, ao irresponsável que desdenha sinal vermelho… enfim, à toda sorte de caricatos a quem a lei não sensibiliza nem intimida, que eles estão sitiados pelo poderoso exército da cidadania, essa força pública vigilante sob o dever constitucional de respeitar e de fazer respeitar a lei? Quando é que vamos mostrar que aqui quem manda somos nós, o povo brasileiro!?
É fácil fingir indignação e fazer de conta que nós somos diferentes. Colocar a culpa somente nos políticos, é fácil! Mas os políticos são só um sintoma dessa sociedade apática e condescendente em que nós nos transformamos. Difícil, mas não impossível, é transformá-la.
Faça a sua parte, companheiro!
antonio veronese
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REFERENDUN VENDA DE ARMAS DE FOGO NO BRASIL
Ganhou o olho por olho…
Sobre o resultado do referendo sobre venda de Armas de Fogo no Brasil-
Outubro 2005
Ganhou o olho por olho, o dente por dente. Ganhou o direito de usar os mesmos recursos dos assassinos. Ganhou a perspectiva de sujar as mãos de sangue, como os algozes. Ganhou a mentalidade tosca, anti-republicana, que defende que uma vez ineficiente a polícia, deva a sociedade mesma agir no seu policiamento. Venceu o raciocínio simplório de que as armas de fogo são essenciais à segurança dos cidadãos, ainda que, armada até os dentes, nossa sociedade não consiga livrar-se do vergonhoso recorde mundial de assassinatos, em números proporcionais e absolutos. Num país onde 12 pessoas são assassinadas a cada hora, ganhou o direito de continuar matando! Os brasileiros exigem, como John Wayne, o direito a um coldre com um 45 na cintura, o que permitirá ao Brasil do século XXI “ascender” ao nível civilizatório do oeste americano no século XVII.
Estou profundamente decepcionado com o resultado. Que oportunidade perdemos!!! A proibição das armas não seria, evidentemente, a solução de todos os nossos problemas, mas proporia um novo tempo, uma nova mentalidade para as gerações futuras. Crianças que seriam formadas com o valor, firmado pela lei e pela escola, de que a arma de fogo é um objeto do passado, da brutalização das relações humanas. A vitória do não, ao contrário, propõe e estimula o armamento como alternativa, recrudesce as relações sociais, funda o conceito de que devemos nos defender a nós mesmos, ao invés de atuarmos politicamente para que o Estado cumpra suas funções constitucionais, entre elas a segurança pública. Equivale a defender que, um vez constatada a ineficiência da Justiça, a sociedade deva fazer justiça com as próprias mãos. Em suma, a negação da civilização e da civilidade.
antonio veronese
www.antonioveronese.blog.com
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Os Quatro Pirralhos
São quatro pirralhos numa correria destrambelhada debaixo da chuva fina. Quatro brasileirinhos cascas-grossas, filhinhos de Deus e da puta, num ziguezague suicida em meio à roleta russa dos carros em movimentto:
-Pega, pega…
O que vem na frente, o mais graudão dos quatro, tendo já assegurado o produto do roubo nas profundezas cárneas da cueca, estampa no rosto uma ‘overdose’ de adrenalina: olhos que saltam das fossas faciais como caricaturesca Beth Daves em agonia. Logo atrás, voando baixo, vem um mais escurinho cobrindo a retaguarda: bichinho miúdo de cabeça lisa e canelas finas, dentes de alemão apesar da infância de pouco leite, e a cabeça que gira num frenesi fazendo saltar
os tendões do pescoço como um beque central no sufoco da pequena área. Por últimos, retardados na carreira, vêm os dois mais minguadinhos -’physic-du-rôle do miserê”- num destrambelhamento de rês desgarrada, as pernas sangrando contra o aço dos pára-choques, os pés descalços
no malabarismo do asfalto escorregadio, e a ginga de ‘pelezinhos’ tentando – no limite dos pulmões- acompanhar os proeiros na cavalgada infernal. -Pega, pega os filhos da puta! –grita o cidadão engravatado arfando pelas ventas, carro abandonado no meio da rua pra unir-se ao corso ensandecido dos perseguidores.
-Peeega!- repete em coro a multidão, extasiada com o circo romano que se instala e quebra a rotina sem graça da tarde domingueira. Lá embaixo, na esquina, um guarda de trânsito, alertado pelo banzeiro, saca enorme cacetete e prepara o cerco. A platéia congela em surda expectativa…
O maior de todos, ignorando a autoridade constituída, mantém aceleração e curso inalterados até que, na iminência do bote do final, já nas ventas do parrudo!, dá um salto de acrobata e, desdenhando a lei da gravidade como um personagem de Chagal, passa flutuando por sobre os carros travados no congestionamento, desaparecendo sem deixar vestígios na dobra da esquina do canal.
-Esse já era!!-, vaticina o apontador do bicho, sem conter o sorriso de satisfação. O segundo neguinho, o que vem na cobertura, fiado na rota traçada pelo proeiro, acaba caindo na mesma armadilha: o estreito corredor do matadouro entre os ônibus e o paredão.
-Esse não escapa!! -grita a multidão, babando de sadismo- mas o moleque, que traz nos calcanhares, em fúria, o motorista “ desapropriado” de sua carteira, não desacelera seu curso suicida, parecendo desdenhar as chagas do seu destino.
-Pega, pega esse, porra!- , grita a grã-fina do reluzente carro importado embriagada de histeria.
Uma “ matilha” de marmanjos vitaminados, babando seu coquetel de adrenalinas,aperta o cerco e a Lagoa-Barra encena, em todo seu esplendor, uma inesperada chasse à courre; na esquina do canal, armando o bote, o oficial de polícia abre braços e pernas como um goleiro na hora do pênalti.
A multidão conta em uníssono os metros que faltam para o previsível desfecho: -dez,…oito,… cinco,… três…
Então, motorista que corre colado ao meliante estica a perna num enrosca-pé de capoeirista competente, desferindo um violento rabo-de-arraia nas canelas tísicas do velocista.
O franguinho desequilibra, faz que cai mas não cai, bambeia mas não vacila e, puxando fundo pelo oxigênio, ginga o corpo ensaboado de suor e passa, escorregadio como uma lebre, por entre as pernas do policial, deixando milícia e motorista estatelados no chão após violento choque
frontal… Garrinchinha brasileiro! que dobra e desaparece, prá nunca mais, a mesma esquina do canal.
O apontador do bicho não resiste e soca o ar com um sonoro -puta-que-pariu!!-
Mas ainda restam dois, Deus do céu!!, os dois miudinhos da rabeira tentando escapar no labirinto do congestionamento.
-Tem mais dois!!- aponta a mulher com metade do corpo já prá fora do carro. A multidão gira as cabeças numa coreografia de Rolland Garros… -Lá atrás, tem mais dois!!-, repetem muitos..
O guarda, tentando recompor-se do vexame do tombo espetacular, reassume a operação de guerra aos gritos :
- Pega, pega os ‘lazarento’, não deixa escapar!! Minduin, o sararazinho desdentado que vem por último, passa zunindo pela lotação e entra num corredor estreito formado pelos automóveis.
Cercado, escorrega vaselinado por debaixo do lotação dando de cara, na calçada oposta, com Dentinho, o menorzinho e único branquela dos quatro que, sem mais forças pra correr, começa a chorar… um choro fundo, desesperado, o pavor estampado nos olhos miúdos de criança.
-Espera eu, espera eu, Minduim-, implora . Não me deixa eu aqui!!! Minduim, sensível ao choro do pequenino, vacila, atraza o passo e estica a mão solidária, mas perde um tempo precioso… O cerco se fecha, não há mais como escapar…Num último e desesperado recurso, atiram-se os dois nas águas sujas do canal da Visconde, acoutando-se sob a velha ponte de pedra.
O cavalaria dos perseguidores cerca pelo outro lado e faz o paredão. Fim da linha! A andrajosa parelha senta-se derrotada na água putrefata, os ossos das costelas abrindo o fole da sanfona do peito como na agonia da consumpção. Dentinho chora convulsivamente, mas Minduim,
medo e revolta condensados em sua expressão facial, encara a multidão com surpreendente bravura:
-Bate não, filha da puta- ameaça o pequenino, valente como um sagüí encurralado. -Tá me segurando por quê? Que foi que eu fiz, filho da puta? -Roubou minha carteira-, grita espumando pelas ventas o motorista que, a muito custo, é contido em sua fúria pelo guarda, no reboliço das águas lodacentas.
-Eu te roubei!? Eu não te roubei, não. Quem te roubou foi Tião, o negão qu´ ”ocêis’ deixaram escapar. Eu num roubei ninguém, não!!-, repete o pequeno, engrossando a voz ante o silêncio da platéia paralisada.
-Cadê, cadê tua carteira? Comigo é que num tá! Olha aqui, pode ‘arrevistá’. Eu num roubei nada não! Eu tô limpo!! e me deixa eu, pôrra!!!-, grita o moleque, desvencilhando-se, num arroubo, da própria camisa presa nas mãos do grandalhão.
-Mas, então, por que tu corria, pivete?- pergunta-lhe o policial… quem não deve não teme!
O menino então levanta o nariz desafiadoramente -peito arfante como um toureiro, olho no olho da multidão-,e responde com voz surpreendentemente firme para a situação:
-Corria porque hoje é domingo e tá na hora do jogo do meu Mengão. Por que, não se pode mais nem ir ao futebol nessa cidade?! E, tomando pela mão o menorzinho –que contagiado por sua valentia
controla o choro numa convulsiva crise de soluços- , afasta-se lentamente da multidão atônita, a quem se dirige, pela última vez, agora já cioso dos seus direitos constitucionais: - E não bate não, gente boa, não bate não que “nóis é di menor”.
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Tráfico no Leblon- O Globo
Nesses tempos de desemprego e dificuldades, tive uma idéia que pode ser muito lucrativa: montar uma boca-de-fuma na Zona Sul do Rio de Janeiro. Não em cima do morro como como as outras mas aqui embaixo, ao rés do chão, numa rua nobre e de grande poder aquisitivo. Pode ser, por exemplo, na Carlos Góis no Leblon, naquele quarteirão entre a San Martin e a Ataulfo de Paiva. A presença dos cinemas e do Cliper garantem ali grande afluência de público. Lucro certo !! Uma vez definida a localização da nova « boca » o resto é fácil… nas duas esquinas vou postar homens armados de fuzis AR 15. Afinal, se o ponto é bom, é previsível que grupos rivais tentem dele se apoderar. Espalhados pela quadra atuarão meninos fogueteiros treinados para avisar quando chega a polícia.
Naquela pequena galeria comercial, nos fundos dos cinemas, vou instalar o depósito do pó, e na lojinha do lado, que não deve ter o ponto assim tão caro, vou montar o arsenal; armamento pesado para garantir a segurança da boca. Para distribuição vou cooptar meninos na faixa de oito a dezessete anos residentes na própria área. Eles podem ser facilmente localizados nas portas dos colégios Santo Agostinho e Saint Patrick’s. Serão treinados e armados, devendo obediência cega ao chefe que, neste caso, serei eu. Seus salários, vou assegurar, serão em muitas vezes maior que as mesadas que recebem dos pais; uma forma eficiente de transferir o pátrio poder para o chefe da boca, quer dizer, do negócio. Ali vou mandar eu, a ferro e fogo, eu o novo chefe da Carlos Góis ! Quem ousar desrespeitar minhas determinações será sumariamente eliminado. Como decorrência natural deste poder, terei acesso irrestrito a todas as mulheres do quarteirão, independentemente se são casadas, solteiras, menores ou virgens. Como contrapartida distribuirei dez por cento do lucro à comunidade, dedicando especial atenção aos doentes e velhos. Assistencialismo de ocasião! Se o pessoal do vigésimo terceiro Batalhão ameaçar atrapalhar o negócio, tentarei subornar seu comandante, transferindo trinta ou quarenta por cento do faturamento para engordar a parca folha de salários da tropa… Se esse tipo de negócio dá lucro em áreas miseráveis da cidade, imaginem no Leblon.Como ninguém pesou nisso antes?
Esse projeto mirabolante, é claro, é só uma provocação. Imaginem o primeiro telefonema que receberia a Polícia Militar, quinze minutos após o início das minhas «atividades» na Carlos Góis :« aqui é o doutor fulano de tal… estão vendendo drogana porta da minha casa e eu exijo Imediatamente uma providência ». Manchetes escandalosas dariam conta de que um grupo de traficantes teria cometido a suprema ousadia de instalar uma distribuição de entorpecentes em plena zona sul, no seio de uma comunidade respeitável onde mora só “gente de bem!”. Em menos de duas horas haveria uma verdadeira blitzkrieg: polícia civil, polícia militar, polícia federal e exército, devolvendo, rapidamente, a paz à nossa respeitável Carlos Góis. poupando suas crianças do trágico destino de se transformarem em “vapores do tráfico” ou engrossar a aviltante cifra de 600 meninos assassinados por ano somente na nossa ´cidade “maravilhosa”. Por fim, resta uma singela pergunta: e no Morro do Alemão, no Vidigal, na Rocinha, no São Carlos, no Dona Marta, no Esqueleto,na Mineira, na Maré,no Encantado, no Pavão Pavãozinho, no Canta-Galo e em tantos outros sítios urbanos com jurisdição própria, onde o Estado, covardemente, está ausente? Por que os humildes moradores dessas favelas -a honestíssima vovó que mora vizinha à boca-de-fumo e que vê seu neto ser cooptado pelo tráfico- não podem simplesmente chamar a polícia?
Se os senhores Governador e Ministro da Justiça quiserem eu posso fornecer-lhes Uma lista com os endereços de quarenta “bocas” onde, hoje à noite, o tráfico vai funcionar a céu aberto, com filas de usuários educadamente postados à espera do “atendimento”. Locais em que crianças estão sendo corrompidas, mulheres ameaçadas, em que vidas preciosas são perdidas, em que autoridades policiais são aliciadas, em que o negócio floresce sem os riscos da rua Carlos Góis no Leblon. O resto é conversa fiada e pose solene de candidato. Afinal, como ensinava Bertrand Russel, solenidade é, na maioria das vezes,somente um disfarce para a impostura.
Antonio Veronese –
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Na Corda Bamba
De repente, como num passe de mágica, meninos de rua do Rio transformaram-se em verdadeiros artistas de circo! Não mais lavam compulsoriamente o nosso parabrizas mas, quando menos se espera, oferecem-nos um número de malabarismo. Não pedem mais um real como esmola, a troco de nada, mas como “couvert artístico” por uma fração de magia, um momento de inesperada fantasia circense na rotina sem graça do trânsito.
É certo que a rua não é o melhor lugar para estar uma criança…No entanto, nas circunstâncias em que vivemos, é inegável que poder compensar esses meninos,
ainda que só com uma moedinha, significa propor-lhes um admirável-mundo-novo onde, para ganhar dinheiro, é preciso dar alguma coisa em troca; merecer!!, e não somente estender a mão e pedir, como faz uma pessoa doente ou incapaz. Numa hora em que a ciência vislumbra a possibilidade da clonagem de seres humanos, o que realmente me emociona é a constatação de que cada um desses meninos é peça-única, indivisível e inimitável como um óleo de Da Vince. E que, mais do que produzir em série geniozinhos de olhos azuis, fascinante mesmo é o desafio que temos de transformar o destino desses pequeninos artistas que, mesmo órfãos de sonhos e de fantasia, acabaram por transformar a cidade num grande circo a céu aberto. Literalmente, no maior espetáculo da Terra!
Antonio Veronese (junho 2002)
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A Liturgia da Cidadania - Jornal do Brasil
É estratégia do governo isolar o MST , e para isso questiona sua legalidade e legitimidade
em decorrência das ações adotadas pelo movimento nas últimas semanas. Recorre ao que
George Orwell chamou de “doublespeak”, a tentativa de impor à sociiedade a verdade
do poder,independentemente da verdade dos fatos. Infelizmente grande parcela da
imprensa se deixou levar pela esperteza do Planalto e, como conseqüência,cresceram
nas páginas as críticas ao MST.
Questionar a legalidade é a ante-sala do recrudescimento da repressão, seja pelo aparelho
estatal, seja pelas milícias privadas.Com isso FHC abdica de sua função moderadora, ensaia
um discurso autoritário, e deixa escapar o papel que a História lhe havia reservado. Servem a
essa estratégia as acusações de que o MST quer transformar-se em partido político e adotar
o exercício político stritu-senso, como se não fosse esse um direito de todos os segmentos
da sociedade. Acusam-no também de desviar-se do seu caminho original, cometendo ações
urbanas atentatórias ao patrimônio e à segurança públicos. Num país como o nosso,
onde é crônico o desrespeito aos direitos humanos e o genocídio de menores e a fome são manchetes
cotidianas, impõe-se à sociedade a busca da justiça , alencando-se entre suas legítimas
prerrogativas, in-stremis, a desobediência civil.
E isso está claro para MST , pois o governo só cede e
é diligente nas regiões em que o movimento adota estratégias mais contundentes. O MST
tenta com isso levar, além dos limites da geografia agrária, os horizontes da luta que
se propôs. Justificam essa estratégia a fundada descrença nos mecanismos
constitucionais disponíveis, e a insensível atuação de FHC, que frustra, enquanto
chefe de Estado, as expectativas que em torno dele existiam. Nos últimos quatro anos
aumentaram a tensão e o confrontamento, e são inocentes as avaliações de que
essa questão possa ser resolvida pela força. Para peãozada do MST a fome e a exclusão
são ameaças muito mais concretas que os cassetetes da polícia ou as armas dos jagunços
a serviço do latifúndio. Para essa imensa parcela de brasileiros “Sem-Esperanças” ,
o MST é um canto de sereias irresistível, e é difícil abrir mão da utopia
dos seus acampamentos , onde se ensaia um micro-Estado mais justo,
para retornar à dura realidade do Brasil contemporâneo. A própria dinâmica do processo
não vislumbra o recuo dessa marcha autorizada por inquestionável lastro moral.
São milhões de brasileiros sem um palmo de terra para plantar, enquanto do outro lado
da cerca o mato cresce sem pressa de crescer, num país onde 1% dos habitantes
possúe 46% das terras produtivas.
O MST, mais que a reforma agrária, propõe ao país
uma reflexão sobre a anacronía de uma sociedade cuja lógica é a excludência de um
terço de seus habitantes, portanto, uma sociedade de extrema perversidade.
Provoca-nos também a exercer nosso ” devoir d’insolence”, instigando
o renascimento entre nós da liturgia da cidadania.
Por tudo isso, o MST é mais relevante do que insinuam seus precipitados detratores.
O tempo, certamente, irá conferir-lhe sua real dimensão histórica.Graças à sua atuação e ousadia, temos
hoje 5 milhões de brasileiros assentados, em área que excede às da Holanda e Bélgica somadas.
Isso tudo sem dar tiro, ainda que tenha oferecido 1.600 vítimas fatais à sanha de seus
algozes. O presidente a República e parte da imprensa, ao cobrarem do MST que se
mantenha dentro dos parâmetros da lei, parecem esquecer-se que o” estado de necessidade”
reescreve os normativos da lei, a eles modifica e, por fim, a eles se sobrepõe quando não
resta outra alternativa à fome e ao desespero. A paz no campo não será obtida pela força
da lei, mas pela serenidade da justiça.
antonio veronese
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Cheese, Ham an Egg Antonio Veronese- O Globo, 20/05/01
“Fico observando essa discussão sobre a lei Aldo Rebelo e sua repercussão. Há os que a acusam de anacronía, de xenofobía, e de outras ‘ias’ mais. No entanto, o fato é que chega uma hora em que a questão da identidade tem que falar mais alto; afinal de contas, a língua é a própria pátria! Disto sabem bem os franceses que, há décadas, legislam em defesa do francês e da francofonia. A anglicização galopante do português no Brasil perverte e desnatura a mais bela de todas as línguas latinas (e perdoem aqui a minha jactância luso-brasileira). Da mesma forma decreta, por desuso, a morte de palavras belíssimas como, por exemplo, ‘cancioneiro’, substituída, parece que definitivamente, pelo malfadado ’song-book’ como, com muita propriedade, já reclamara o mestre Antonio Callado. Nesta linha de raciocínio, chega a ser engraçado que a compilação da obra do grande compositor de música popular brasileira Cartola, carioca por excelência e com indiscutíveis raízes africanas, seja chamada de song-book pelos próprios brasileiros, como bem aponta Marcos de Castro no seu livro ‘O caos na ortografia’. Os portugueses, com certeza, não cometeriam tamanha impropriedade. Mas, fazendo cá comigo essas ilações, acabei passando por uma situação que bem ilustra a questão. Dia desses, entrei numa dessas lanchonetes com pomposos nomes em inglês. Queria comer alguma coisa leve, e minha opção estava lá no painel assim descrita: Cheese, Ham and Egg. Chamei o garoto que estava servindo e, fiel à última flor do Lácio, mandei: ‘ô rapaz me vê aí um Queijo, Presunto e Ovo.’ Ele me olhou sem reação, como se eu tivesse me dirigido a ele em sânscrito ou num patoá qualquer. Diante da sua perplexidade, insisti na língua de Saramago: ‘Meu filho, eu quero um Queijo, Presunto e Ovo.’Inutilmente. Fez-se uma pausa desconfortável, ao final da qual o rapaz, tentando assumir o controle da situação, sentenciou: ‘Olhe moço, só tem o que está escrito ali, ó’, apontando num gesto largo o cardápio afixado à parede, que mais parecia um texto shakespeariano do que uma simples lista de guloseimas. Eu, maldosamente, fingindo não entender, insistia com o meu bom portuguesinho: Exatamente, meu filho, e é mesmo por estar ali no cardápio que estou te pedindo: quero um Queijo, Presunto e Ovo! Em vão! Uma senhora do meu lado, atrasada pelo tempo que eu tomava ao rapaz, lançou-me um olhar furioso, e eu estava a ponto de desistir da minha cruzada filológica quando a gerente, vendo o impasse posto, acudiu a tempo do outro lado do balcão: ‘Oh Severino, o que o homem tá querendo é um Cheese, Ham and Egg!!’ E repetiu, enfatizando cada sílaba, num inglês fluente e sotaque irretocável de Connecticut: Cheese,Ham and Egg! Severino, então, abriu no bom rosto de nortista um largo sorriso aliviado: ‘Ah, entendi, o que o senhor quer é um Cheese, Ham and Egg!! É pra já, doutor.’ E em voz alta comandou sem mais delongas ao cozinheiro: Tião,salta ligeirinho um Cheese, Ham and Egg aqui prô my brother!!!!’
antonio veronese
Amanda e Mauro - Antonio Veronese -O Globo
Segunda-feira, cinco e trinta da manhã. No barraco encarrapitado no alto da Rocinha, Mauro, dezesseis anos, corpo tísico de doze, toma uma xícara de café com leite aguado e mastiga às pressas uma “fetta” de pão lambido de manteiga. Bermuda e camiseta, par de tênis surrado com as meias rasgadas nos calcanhares, e o olhar perdido no facho de luz que, como um laser, escapa da janela e corta a escuridão do quarto onde a mãe ainda dorme.
Cenário dois: outro barraco, espetado sobre a meia-laje, não muito longe dali. Amanda veste com dificuldade o surrado vestidinho florido de viscose. Ela está muito acima do peso. “Sabia,moço, que depressão também engorda?” Há um mês, no exato dia em que fazia treze anos, ela perdeu a mãe subitamente: infarto fulminante. Fato, não ficção. O enterro foi numa segunda-feira, bem cedinho. No mesmo dia, depois do almoço, Amanda já estava no batente: “compra um chiclete aí, moço compra” ? Onibus das quinze pras seis da manhã. Maior sufoco! Um real só pra atravessar o túnel, enquanto o dia começa a clarear. Seis e cinco. Mauro assume seu posto próximo às figueiras do canal. Estica um olhar pro outro lado da pista expressa e faz um breve aceno com a mão. Amanda, rosto compenetrado, responde de longe, sem interromper o trabalho: “Compra só um moço, compra pra
me ajudar” insiste através da janela de vidro fechada do automóvel. O dia esquenta e a manhã se arrasta como a fila de veículos travados no engarrafamento. E a pratinha começa a pingar bem devagar: um real aqui, uma moeda ali…Oito da manhã; duas horas de batente. Amanda já fez, tirando o custo, um real e vinte centavos. Mauro, mais ligeiro na cobertura de sua área, soma 2,40. O dia promete! “O que atrapalha muito é o insulfilm” do vidro, reclama o menino. A gente não consegue mais ver a cara do motorista e, sem ver a cara do freguês, fica difícil começar a conversa, entabular a negociação. É triste encarar um vidro escuro onde tudo que vejo é a minha própria cara refletida. Nem sei direito com quem estou falando, se é homem ou mulher… Dia desses, continua, eu tava
apurado, precisando de uma grana extra pra comprar um remédio pra dor de dente da minha mãe. Ela tinha passado a noite em claro! Tava chovendo e com chuva a coisa se complica… Ninguém abre o vidro mesmo! Eu precisava de mais 2 reais de qualquer jeito para completar o preço do remédio, e nada. Quando a noite foi chegando e a agonia apertando, eu dei umas batidinhas no vidro de um carro pra ver se o cara abria, se pelo menos falava comigo. Abriu sim, só que uma pistola na mão que botou bem na minha cara: “se arranca, senão te queimo, vagabundo!”. Corri feito um louco, e mesmo depois do carro ter ido embora, meu coração ainda estava disparado, querendo sair boca afora. Amanda, que de longe viu a cena, foi se achegando de mansinho e sentou-se do lado, acarinhando seu cabelo: Calma, Mauro, o homem já foi embora, cagão! Aí comecei a chorar,
disse Mauro, “mas não foi um choro de medo. Foi um choro de raiva, de revolta mesmo, misturado com uma tristeza que ia apertando o coração. Acho que foi porque ali, naquele dia, eu aprendi de vez que eu era mesmo um bosta, um Zé-ninguém, e que não adiantava nem ir reclamar pro guarda”. Onze da manhã, cinco horas de trabalho. Trinta e seis graus no termômetro digital. Amanda está com uma fome dos infernos, sem contar o arrependimento porque teimou em colocar aquela sandalhinha branca de que tanto gosta, mas que não lhe serve mais. Os pés estão para explodir depois de cinco horas sem sentar, e a quentura do asfalto atravessa impiedosamente as finas tiras de couro da sola. Conta o dinheiro devagar: três e setenta, quatro, quatro e cinqüenta, quatro e sessenta… quatro reais e oitenta centavos! Mauro está num dia ruim; empacou nos quatro reais depois de um novo susto: um carro prateado acelerou com tudo pra cima dele quando abriu o sinal. Precisou dar um pulo de acrobata, senão… Amanda faz sinal de longe como a dizer “vamos comer” ? Mauro finge que não vê e nem responde. Está tão injuriado com o cara do carro
prateado que perdeu a fome. E o pior é que a essa hora já era pra ter feito uns seis reais , resmunga.
Onze e quinze. Amanda larga o posto e vai sozinha até a padaria. Além da fome está louca pra fazer xixi. Compra um pão doce e uma coca-cola. Um real e oitenta centavos. A massa gordurosa do pão e o gás carbônico do refrigerante dão-lhe uma sensação de saciedade gostosa, de barriguinha cheia. Depois de “almoçar” vai ao banheiro e à saída encosta-se num canto da padaria movimentada, tomada de assalto por um grupo de alunos da PUC. Gente bonita, faladeira…”As meninas têm cada roupa de moda!!”, fala consigo mesma. Acha linda uma blusinha vinho de uma delas. “Um sonho”! Depois conforma-se:
“Não pra mim, gorda que nem uma baleia”! Vai longe em seus devaneios quando o português lhe dá um tranco, trazendo-a de volta à realidade: “Se quer mais alguma coisa desembucha, do contrário se manda que aqui não é estacionamento”. Recolocada na rua Amanda se lembra do trabalho. E recrimina-se: parou quase quinze minutos! Volta pro seu posto esticando o olhar em direção ao canal. Será que Mauro já “almoçou”?…Vai um chiclete aí, moço? Compra pra me ajudar… Treze horas. Tirando os quinze minutos de almoço, já são quase sete horas de trabalho sob o sol de estio. Mauro voltou do seu lanche mas, definitivamente, não está de bom humor hoje. Não responde aos acenos de Amanda. Faz um calor dos infernos e agora mesmo é que ninguém mais abre a janela do carro, por causa do ar condicionado. O faturamento está se arrastando e a morraça da tarde apenas começou. A bermuda sintética de Mauro começa a assar-lhe as partes pudendas, e os calcanhares, suados nos rasgos das meias, grudam na sola do tênis como um bife em chapa quente. Bife! , pensa ele, mas depressa desvia o pensamento pra não ficar com fantasias. Almoçou um pastel e um refrigerante: um real e sessenta centavos. Quanto é o chiclete, moleque,
pergunta um rapaz novo, enquanto desce o vidro da janela. “Um é um , três é dois”.Amanda do outro lado, solitária em meio a tanta gente, estica, enquanto não abre o sinal, um papo com um senhor de boa aparência, terno e gravata impecáveis: Onde você mora menina ..Na Rocinha, tio… Quantos anos você tem? Fiz treze no dia em que minha mãe morreu…Quer que eu te leve em casa? Pergunta o homem. Não senhor que eu tô trabalhando. E quanto é que você ganha por dia vendendo esse bagulho aí? Depende, tio, às vêis dez, às vêis vareia… O homem então estica o olho no guarda de trânsito, enquanto murmura entre dentes: entra aqui que eu te levo em casa e ainda te dou os dez reais por fora. Não carece de trabalhar mais hoje. “Não vou não senhor, diz a menina, minha mãe sempre me proibiu de entrar em carro de estranhos”. Mas ela nem vai saber, insiste o motorista, enquanto o sinal ameaça abrir. “Saber ela não vai mesmo”, diz Amanda. “Minha mãe morreu no dia em que eu fiz 13 anos”… Então, entra aqui, propõe mais uma vez o cidadão. “Entro não senhor. Compra um chiclete, moço…um é um , três é dois…compra só um pra me
ajudar”? O sinal se abre e o carro arranca, sem mais formalidades.
Quatro e meia da tarde, dez horas e meia de trabalho. Amanda teve uma tontura com o sol e a dieta parca em proteínas. Ia cair, mas buscou forças, chamou por Nossa Senhora, e não caiu… só derrubou a caixa de chicletes. Uma caminhonete arrancou e passou por cima de uma embalagem e, antes que perdesse todo o estoque, Amanda se arrisca para salvar o resto, quase sendo atropelada. Prejuízo de 1 real. Senta-se na calçada com uma zoeira na cabeça que parece querer explodir. De uns tempos para cá, deu de ter umas manchas na vista e depois vem uma enxaqueca dos infernos. Olha no relógio da esquina: 38 graus. Conta e reconta outra vez o capital: onze reais e vinte centavos, tirando o da passagem do ônibus
de volta, guardado em separado. Uma senhora estica a mão e dá-lhe um caramelo. Deus lhe
pague, tia. Mastiga a bala devagar, fazendo render, a língua enfeitiçada pela doçura do mel. Moço, que horas são? Valeu! Dá um friozinho de felicidade na barriga. Graças a Deus, já tá quase na hora de voltar pra casa!
Dezenove horas. No ponto de ônibus, quase em frente à PUC, encontram se, ao final de
mais um dia de trabalho, Amanda e Mauro. Só um olhar, um sorriso seco. Quanto tu fêiz?
Pergunta a menina. “Num é da tua conta… E tu, quanto fez”? Quinze real, responde Amanda, fazendo pose. Hum, tá de caô, baleia? Que quinze que nada! Amanda abre um sorriso que ilumina o rosto cansado: fiz 12,80, tirando o almoço. Fiz melhor que tu, vangloria-se Mauro… fiz quatorze!! No ônibus lotado vão os dois em pé, lado a lado, num silencio cúmplice. Saltam no Boiadeiro, passo apertado, despedindo-se com um breve gesto de mão.
Esta história verdadeira, com seu casal de protagonistas e enredos que pouco mudam, repete-se todas as manhãs, há mais de seis anos, no cruzamento da Lagoa-Barra com a Visconde de Albuquerque, na Gávea. Amanda e Mauro estarão lá amanhã bem cedinho, torcendo pra não chover, pra não fazer muito calor, pro sapato não apertar, pra cabeça não doer e, principalmente, pra que a féria seja boa. Um dia perguntei ao Mauro: e se tu ganhasses na loteria, o que querias pra ti? E ele respondeu sem pensar nem um segundo: “ eu voltava a estudar, tio, porque eu gosto mesmo é de escola! Antonio Veronese
Remoção de Favelas, Direito de Todos
“Feio, não é bonito, o morro existe mas pede prá se acabar”
Gianfrancesco Guarieri e Carlinhos Lyra
É impossível discutir remoção de favelas no Rio de Janeiro sem despertar de pronto o patrulhismo “politicamente correto” dos que defendem os direitos desses guetos contemporâneos. Mas que direitos são esses? Posso falar com alguma experiência pois, em 1992, estive na linha de frente do movimento que removeu a favela do Alto Leblon. Na ocasião a sociedade civil, atuando no hiato da autoridade constituída, mas com inestimável apoio da prefeitura, financiou e executou a remoção de toda uma comunidade precariamente instalada no bosque do Alto Leblon. Contrariando prognósticos dos céticos e ignorando insinuações de detratores de primeira hora, o projeto foi de um êxito completo: duas centenas de pessoas que ali habitavam barracos rústicos e sem direito às decências básicas, deixaram de ter o status de invasores de um próprio público para assumirem a condição de legítimos proprietários do seu imóvel de residência, com direito a água encanada, esgoto, luz elétrica e titularidade firmada em registro público.
A remoção foi feita no interesse Alto Leblon formal, (aquele que paga impostos e que não gosta de ter favela por perto), no interesse da ecologia ( com o replantio de um bosque da Mata Atlântica de luxuriante diversidade que estava sendo destruído) mas , especialmente , no interesse dos próprios moradores da antiga favela que, colocados diante da possibilidade de ganhar uma casa própria, concordaram de pronto em deixar a área invadida. Todos os moradores,sem exceção!! A única reação adversa veio de traficantes instalados no local que, contrariados em seus interesses econômicos, tentaram obstruir a remoção, ora com ameaças, ora recitando a cantilena mesma do “direito da favela de existir”..
Sabe-se que a imensa maioria dos moradores de favelas é gente honesta e trabalhadora, empregada na própria região. Habitam a favela por absoluta falta de alternativa. No entanto, o ingênuo fatalismo que se socorre dessa realidade para defender a preservação! das favelas, (e que conta com apoio de respeitáveis personalidades da sociedade e cultura cariocas!) acabou por desencadear um processo de septicemia do espaço urbano que está destruindo o Rio e, por conseqüência, sua capacidade de seduzir e atrair turismo. Turismo, ressalte-se, que dá emprego e gera impostos que sustentam os investimentos sociais de que são mais carentes, justamente, os moradores de favelas.
A área urbana que interessa ao turismo no Rio é, por conseqüência , um extraordinário patrimônio que pertence a toda a sociedade e cuja preservação, e correta exploração no sentido de maximizar suas potencialidades turísticas, aproveita a todos os cariocas sem exceção. Além disso, a retórica simplista do “direito da favela de existir” favorece à crônica omissão do Estado brasileiro em assegurar a todos um direito que é constitucional, qual seja, o de morar com dignidade! Este sim um valor que deveria ser objeto da defesa intransigente dos patrulheiros de plantão. Quem conhece o interior de uma favela, (eu trabalhei com meninos favelados por 16 anos), sabe o que significa morar ali: falta de saneamento básico, maior incidência de doenças infecto-contagiosas, coleta de lixo inadequada ou inexistente, promiscuidade, dificuldade de acesso para os idosos e as crianças, riscos de desabamentos e catástrofes anunciadas nos períodos das grandes chuvas… Não bastasse esse rosário de penas, há ainda o martírio diário da convivência com a violência entrincheirada do tráfico de drogas , a indigna submissão ao estado paralelo que produz situações como a do último fim de semana, quando uma parturiente teve que dar seu filho à luz no meio da rua, pois o acesso da ambulância foi negado pelo xerife do morro . Nessas comunidades infectadas pelo crime organizado, vivencia-se a tensão crônicamente, o que faz que 61% de suas crianças, de acordo com estudo da Pediatria do Miguel Couto, padeçam de doenças psico-somáticas relacionadas ao medo. Quem conhece as nossas fazendas de produção de leite sabe que hoje, no Brasil, o gado leiteiro vive com mais higiene e facilidades do que os moradores de algumas de nossas favelas, sendo oportuna a citação de Bloch de que “…a massa de pessoas reduzida a gado humano é um dos mais fiáveis indicadores de não-civilização”. As favelas cariocas, esses estados paralelos com jurisdição e soberanias distintas, com exércitos próprios e leis de taliban, são um escárnio à Justiça e uma afronta aos direitos de brasileiros pobres que, da mesma forma que os moradores do asfalto, trabalham e pagam impostos embutidos em cada litro de leite que consomem. Retirá-los desta condição sub-humana deveria ser impositivo ao orçamento público, e a ladainha da falta de recursos mascara, na verdade, a indigência de coragem e de determinação política, anestesiando na sociedade o debate de um tema crucial. Defender a jurisdição civil da favela é contribuir para a perpetuação do paradigma, apontado por Joel Rufino, “da competência das elites brasileiras em manter a dominação…” A mudança dessa mentalidade pode ser o primeiro passo para um novo tempo onde sejam respeitados o patrimônio urbano, a ecologia e, principalmente, o direito constitucional que todos têm de morar com dignidade.
antonio veronese
Texto de Antonio Veronese, publicado em 1998!
A DUPLA RO-RO, de Antonio Veronese-
Na hora sagrada do meu “chopinho-nosso-de-cada-dia” começa, na mesa ao lado no botequim, um bate boca dos infernos. Motivo da querela: a dupla Ro-Ro na seleção brasileira de futebol. Ronaldinho e Romário, defendem uns, em acirrada discordância com outros…Todos em etílica desarmonia!
No calor da discussão um dos porristas, incomodado pela minha serena imparcialidade, vira-se e pergunta-me de chofre:
-E aí, simpata, tu és a favor ou contra a dupla Ro-Ro na seleção?
Tomado de surpresa e, na tentativa de ser poupado do embrólio, respondo que não sou nem a favor nem contra…
Em vão!!…O cara quer porque quer saber a minha opinião, como se fôra eu um abalizado estrategista do velho esporte bretão:
“-Ô amizade -diz-me o troglodita- vais agora ficar em cima do muro, é?! Desembucha de uma vez, tu és a favor ou contra, pô?!
Sem alternativa tento, num último recurso, arrumar uma saída diplomática que me assegure o direito “constitucional” de beber minha cervejinha em paz. Para tanto, após breve pausa aguardada em constrangedor silêncio pelos hunos da mesa vizinha, respondo:
“ O problema, meu amigo, é que em se tratando de dupla RO-RO, a minha é mais antiga que a sua!! A minha dupla Ro- Ro tem mais de quarenta anos e pertenceu a um grupo de meninos da zona sul do Rio de Janeiro que resolveu mudar a cara da música popular brasileira, refazendo a própria identidade de toda uma cidade.
Então, marcando o compasso na mesa, cantarolo: -”Rio que mora no mar, sorrio pro meu Rio que tem sua mar, lindas
flores que nascem morenas em jardins de sal”… Voilá, uma panfletagem estética definitiva do Rio , com um vanguardismo de Las Señoritas de La Calle Avingon e a simplicidade e leveza de um móbile de Calder, concluo.”
O porrista , de olhos arregalados como se tivesse ouvido uma nova versão do
Samba do Crioulo Doido, após consultar de um olhar a estupefação silenciosa dos seus colegas, reage encarando-me feio:
- Que é isso, cidadão, tu tá gozando com a minha cara, é?
Preocupado com o rumo que ameaça tomar a nossa “amigável” discussão, finjo calma e esmero-me na explicação:
- Calma, rapaz, calma que não é nada pessoal. Muito pelo contrário… o que eu estou tentando tdizer é que eu ando com um banzo danado, saudades de um tempo feliz que ficou pra trás quando o Brasil, na bola e na bossa, era o primeiro do mundo.
-Quer fazer o favor de se explicar melhor…retruca meu truculento interlocutor, enquanto sorve de um só golpe mais um bracarensiano na pressão.
-Eu explico…. é que dá uma tristeza danada ligar a tv, hoje em dia, e ver sempre as mesmas caras, aquela mesma porcaria multifacetada em funk, pagode ou , o que é pior, nessa música neo-caipira de três compassos, com seu romantismo piegas e suas rimas de infinitivo. O povo gosta, dizem alguns . Gosta? Gosta nada!! O povo não tem é escolha, porque não tem acesso à cultura, porque não tem elementos de comparação, por que só conhece o sub-produto que lhe impõe a nossa televisãozinha de merda, que propõe valores vazios, que cria conceitos artificiais…
O porrista então, parecendo serenar-se pela cumulação dos decilitros etílicos, arrefece o seu “animus disputatio”, dando-me a chance de continuar na precária defesa da minha tese:
-”Li hoje no jornal, continuo, que a dupla Sandy e Junior vai gastar cinco milhões de reais somente em divulgação. Pois acredito que se dessem dez por cento dessa grana para divulgar Carlos Cachaça e Cartola eles venderiam mais do que essa dupla de adolescentes pós-caipira que, para a infelicidade geral da harmonia, confirma o ditado que diz que “filho de peixe, peixinho é”.
Pior ainda -continuo- é o “esquemão” que se aproveita da omissão do Estado na exigência de contrapartidas estético-culturais de interesse público nas concessões que faz de radio e televisão. Esquemão que fomenta a peita cumplicidade e provincianismo de programas como o de Faustão e Gugú que, com sua idolatria de chinfrins movidos a grosso jabaculê, acabaram por nos impor essa porcariada toda.
- Desligue a tv, pôrra!, propõe-me , agora mais amistoso, apesar do calão! , o já quase solidário companheiro de botequim.
- Mas de que adianta?- retruco- se sou perseguido por esse lixo sonoro que se dissemina como Antraz onde quer que eu vá: no volume desmesurado da televisão do vizinho, no rádio mal sintonizado do táxi, no ” som-ambiente!!??” restaurante , ou mesmo no ” chic” sistema de som do ônibus comunitário do meu condomínio.
Depois de uma pequena pausa, da qual me aproveito para tomar o resto de chope quente do meu copo abandonado no fragor da discussão, o bêbado vizinho, parecendo desistir finalmente da sua inquirição, coloca a mão amistosamente no meu ombro enquanto murmura, entre dentes, o seu axioma de concordância:
-É,…pobre geração Renato Russo!!
Tendo conquistado a duras penas sua cumplicidade, aproveito a ocasião para desfiar minhas mágoas, como se eu estivesse agora no divã do meu analista:
-Sobrou-me apenas o som do meu automóvel, último reduto prá satisfazer minha crescente dependência de doses massivas de Tom, Vinicius, Carlinhos Lyra, Cartola, João Gilberto, Donato, Francis Hime, Chico e, finalmente revelo, da minha dupla Ro-Ro preferida, fomada por Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal!.
O bêbado, então, tomado subidamente de um olhar nostálgico, tamborila os dedos no copo de chope, cantarolando sem jeito:
- O barquinho vai, a tardinha cai…- é taí uma dupla Ro-Ro do cacete!, concorda finalmente.
- Uma dupla cheia de bossa, continuo, que juntamente com a turma da pesada aí de cima, produziu a mais universal de todas as produções made in Pindorama: a Bossa Nova!! Enquanto essa bossa enche teatros no exterior, -continuo ao meu agora atento ouvinte- continuamos no Brasil ouvindo esse músiquinha burra imposta pelas gravadoras a um mercado cada vez mais burro. Sintomática desta burrice, que perpassa mesmo a elite brasileira, foi a atitude da “seleta!?”platéia do Prêmio Multi-Show no Teatro Municipal, que se pôs em debandada assim que Bebel Gilberto iniciou sua apresentação.
Fez-se, então, uma longa pausa, durante a qual o borracho, olhar distante e cerrado cenho, pareceu esquecer-se até do copo de chope que trazia na mão.
-Vamos mudar de assunto, proponho-lhe finalmente, satisfeito com seu silêncio reflexivo. Não se deixe contagiar pela minha nostalgia… talvez seja apenas saudade de um tempo feliz que ficou pra trás. Talvez seja só um pouquinho de tristeza por um país que, tão rico no esporte e na música, insiste em chafurdar na mediocridade. Ah, e por falar nisso, concluo, concordo totalmente com a sua dupla Ro-Ro na seleção.
O bêbado , então, estampou no rosto um largo sorriso, e bebemos solidários noite adentro, cheios de esperança de que, na bola e na bossa, o Brasil volte a ser um dia como há quarenta anos atrás, quando já estávamos cem anos à frente de hoje em dia.
antonio veronese
” O meu Rio é o de Carlos Lyra, não o do Comando Vermelho!”
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Antonio Veronese e a Bienal de São Paulo
Destaques de Entrevistas
O Ataque a Leila Schuster
O ataque que sofreu a senhora Leila Schuster à saída do Fashion Rio é dramaturgia perfeita do caos carioca. Por obra do acaso cruzaram-se, em uma esquina do Rio, o glamour inacessível de uma elite de privilegiados com a barbárie nossa de cada dia. Infelizmente, mais uma vez, a tragédia dessa conflagrada convivência não será suficiente para romper os grilhões da nossa passividade. Dia desses ouvi de uma “socialite” a afirmação de que tinha um carro blindado e que, portanto, não se sentia incomodada com a violência. Uma semana depois, outra socialite foi brutalmente assassinada no Leblon, ainda que também tivesse um automóvel blindado. Há dois dias uma nota arrogante e despropositada de uma das nossas colunas “sociais”, dava conta que a mesma senhora Schuster acabara de construir em sua casa um deck de 400 metros que “… mais parecia coisa de outro mundo!” A alienação das elites brasileiras é uma endemía que nos levou à septicêmica da violência que nos envergonha diante do mundo civilizado. O ataque covarde à senhora Schuster colocou-a, por um instante de terror, no “front” dessas duas realidades tão distintas, mas indissociáveis. Amanhã os jornais já terão dela se esquecido. Outras vítimas ” mais frescas” vão assegurar-lhes o repasto diário de sensacionalismo. E nada, rigorosamente nada!, será proposto por essa elite intoxicada de superficialismos e obsecada por vãs notoriedades. O Rio de hoje é um espectro do que foi um dia, terra de cultura e poesia, centro do pensamento nacional.
Antonio Veronese- O Globo-19 de janeiro de 2007
”O Rio precisa olhar-se no espelho, pois sentir vergonha já é um bom começo” Entrevista à Rádio France- Julho 2003
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